Trocamos Eu por Você para lidar com experiências negativas

Trocamos
"Eu tentei fazer tudo certo, mas às vezes você faz coisas erradas."
[Imagem: Simone Lovati/Wikimedia]

"Eu acerto - mas você também pode errar"

No individualismo tradicional que marca a sociedade contemporânea é grande o gosto pela afirmação do "Eu", sobretudo como forma de se manter e se mostrar competitivo no campo profissional.

Mas as pessoas parecem fazer um movimento quase automático para longe de si próprias quando as coisas parecem dar errado.

E, para deslocar-se do foco da coisa que deu errada, nós simplesmente mudamos o pronome, e passamos a usar "Você".

"É algo que todos nós fazemos como uma forma de explicar como as coisas funcionam e para encontrar significado em nossas vidas," disse Ariana Orvell, da Universidade de Michigan (EUA). "Quando as pessoas usam 'você' para falar de alguma experiência negativa, isto faz com que elas normalizem a experiência e reflitam sobre o acontecido à distância, de fora."

Por exemplo, a frase "Algumas vezes você ganha, outras você perde" pode indicar que uma pessoa falhou em determinada situação. Ao usar a palavra "você", ela é capaz de se expressar dizendo que isso poderia acontecer com qualquer um.

"Ou dizer que 'Quando você está com raiva, você diz e faz coisas que provavelmente se lamentará' pode realmente explicar uma situação pessoal, mas o indivíduo tenta clarificar algo que fez e que já pode ter acontecido com muitas pessoas", disse a pesquisadora.

Reflexão sobre as próprias experiências

Ariana realizou nove experimentos com quase 2.500 pessoas para tentar entender por que as pessoas curiosamente usam "você" para se referir às suas próprias experiências.

Em um deles, os voluntários deviam escrever sobre uma experiência pessoal: Dando sentido a um acontecimento negativo, revivendo um acontecimento negativo ou simplesmente escrevendo sobre uma experiência neutra. Aqueles que estavam no grupo que tinha que escrever para dar um sentido a algo usaram o genérico "Você" mais vezes em suas respostas (46% deles usaram a palavra pelo menos uma vez) do que aqueles no grupo que tinham que reviver um evento negativo (10% usaram a palavra pelo menos uma vez) ou no grupo neutro (3% usaram a palavra pelo menos uma vez).

Os pesquisadores também constaram que usar o "você" genérico levou as pessoas a verem o evento de uma forma mais distante, algo um tanto contraditório, uma vez que as pessoas generalizam a situação quando querem refletir sobre uma experiência pessoal.

"Nós suspeitamos que é a capacidade de ir além da sua própria perspectiva para expressar experiências compartilhadas e universais que permite que os indivíduos deem sentido a um evento negativo pessoal de uma maneira mais ampla," interpretou Ariana.

Os resultados foram publicados na revista Science.


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