Livros pretendem desmistificar visão eurocêntrica do Cristianismo

Livros pretendem demistificar visão eurocêntrica do Cristianismo
Os livros com uma nova luz sobre a história do Cristianismo ficarão acessíveis gratuitamente apenas dois anos depois de serem publicados.
[Imagem: CC0 Public Domain/Pixabay]

Cristianismo além da Europa

Uma nova série de livros acadêmicos que começará a ser lançada nos EUA pretende desafiar a percepção do Cristianismo como uma religião unificada e europeia antes do século XVI.

Para a professora Rabia Gregory, da Universidade de Missouri, essa visão "europeizante" do Cristianismo é um viés que precisa ser retirado dos estudos sobre a religião.

A pesquisadora explica que a maioria dos livros didáticos sobre o Cristianismo começa com a história de Jesus na Palestina ocupada pelos romanos no primeiro século, depois pula para o imperador romano Constantino, que legalizou a religião e acabou com a perseguição aos cristãos, antes de avançar para a Idade Média e explorar o Cristianismo como um fenômeno puramente europeu, terminando com os colonos europeus trazendo o Cristianismo para o Novo Mundo.

Ela diz que esta é a narrativa dominante na imaginação americana e europeia, mas as evidências históricas sugerem que provavelmente havia mais cristãos fora da Europa antes do ano 1000 do que na Europa.

"Havia cristãos presentes ao longo do que agora chamamos de Rota da Seda, assim como há documentos cristãos escritos no alfabeto chinês a partir do ano 900. Há evidências de populações cristãs em várias partes da África, comunidades bem documentadas de cristãos em partes da Índia, Paquistão e Irã, e cristãos em partes do Oriente Médio e Norte da África sob o domínio de vários líderes muçulmanos," disse Gregory.

Livros pretendem desmistificar visão eurocêntrica do Cristianismo
A visão eurocêntrica do Cristianismo que impera hoje no Mundo Ocidental está prestes a ser desmistificada por uma nova série de livros.
[Imagem: Wikimedia/Reprodução]

História oculta do Cristianismo

A professora Gregory conta que existem textos e estudos sobre essas comunidades cristãs não-europeias, mas que eles não são publicados. É isso que ela está tentando mudar juntamente com as demais editoras da série - Kathleen Kennedy (Universidade Estadual da Pensilvânia - Brandywine), Susanna Throop (Ursinus College) e Charlene Villaseñor Black (Universidade da Califórnia - Los Angeles).

A nova série de livros acadêmicos, chamada Christianities Before Modernity (Cristianidades antes da Modernidade), será publicada pelo Medieval Institute Publications e deverá explorar o Cristianismo pré-moderno na Afro-Eurásia e no mundo atlântico de 300 a 1700.

"Uma das coisas que estamos interessadas em fazer é desafiar a ideia de que a Europa era predominantemente ou exclusivamente cristã," diz ela. "As pessoas que trabalham com Europa Medieval muitas vezes escrevem sobre a cultura europeia como se ela fosse puramente cristã, sem pensar na grande presença de comunidades judaicas ou no legado de religiões pré-cristãs ou encontros ou preocupações sobre não-cristãos".

Livros de acesso aberto

Outro objetivo das publicações será reconstruir os mundos religiosos de povos pouco estudados, como os cristãos coptos no Egito, documentados naquele país desde o ano 250, ou os gnósticos, que floresceram na região mediterrânea do segundo ao quarto séculos e ainda tem adeptos até hoje. Gregory conta que alguns dos manuscritos mais antigos dos textos cristãos são encontrados na Etiópia, mas não se encaixam na história familiar do Cristianismo.

Livros pretendem demistificar visão eurocêntrica do Cristianismo
"Eu me importo profundamente com o acesso aberto porque o trabalho que fazemos como estudiosos precisa estar disponível para o público."
[Imagem: Universidade de Missouri]

"Os historiadores escrevem sobre o Cristianismo primitivo na Inglaterra ou na Alemanha, mas não na Síria ou no Iraque ou na Armênia - algumas das primeiras igrejas que ainda estão ativas estão na Síria," disse ela. "A narrativa popular de como o Cristianismo começou e se espalhou não inclui essas regiões. Nós estamos tentando escrever uma versão e levar as pessoas a pensarem sobre uma versão que inclua o mundo inteiro, e não apenas bolsões da Europa Ocidental".

A expectativa é publicar de três a cinco livros por ano, com os primeiros títulos saindo no ano que vem.

Gregory afirma que também está animada porque os livros publicados na série vão ganhar o status de acesso aberto apenas dois anos após serem publicados, o que significa que todos ficarão disponíveis gratuitamente na Internet, facilitando também o trabalho de tradução para outros idiomas.

"Eu me importo profundamente com o acesso aberto porque o trabalho que fazemos como estudiosos precisa estar disponível para o público," finalizou ela.


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