Você pode ter preconceitos e não estar consciente deles

Você pode ter preconceitos e não estar consciente deles
"Curiosamente, os participantes geralmente ficam surpresos ou até chocados quando percebem seu próprio viés implícito," disse a filósofa Beate Krickel.
[Imagem: RUB/Kramer]

Viés implícito

Mesmo pessoas que se descrevem como de pensamento livre e mente aberta podem não estar tão livres quanto pensam de terem preconceitos porque os preconceitos são bons em se manterem inconscientes.

Veja um exemplo hipotético: um professor branco descreve a si mesmo como tendo uma visão de mundo aberta e tolerante. Ele confirma que é absurdo e cientificamente inaceitável supor que pessoas com diferentes origens étnicas tenham diferentes níveis de inteligência.

No entanto, ele se sente surpreso quando uma pessoa de cor faz uma pergunta inteligente em sua aula. Além disso, sua impressão intuitiva é que seus alunos brancos parecem mais inteligentes. Este é um caso em que as convicções que a pessoa professa são ostensivamente contraditas por seu comportamento.

Os pesquisadores constatam inúmeros desses casos em seus experimentos - eles chamam isso de "viés implícito" - porque esse tipo de viés pode ser identificado usando testes psicológicos projetados para detectar quando as convicções professas se desviam do comportamento intuitivo.

Repressão do preconceito

A filósofa Beate Krickel, da Universidade Bochum (Alemanha), queria saber por que as pessoas não ganham consciência dos seus preconceitos - em outras palavras, como os preconceitos teimam em se manter inconscientes.

"Há um feroz debate nos campos da psicologia social e da filosofia sobre se os preconceitos medidos com esses testes são de fato inconscientes ou não. O fato de as pessoas expressarem convicções de abertura e tolerância, apesar de seu viés implícito, indica 'não consciente'," defende ela.

Por outro lado, estudos empíricos já mostraram que os participantes dos testes têm a capacidade de perceber seu viés implícito sob condições específicas. "Curiosamente, os participantes geralmente ficam surpresos ou até chocados quando percebem seu próprio viés implícito," contou Krickel.

Para tentar explicar esses dados conflitantes, ela lançou mão dos instrumentos da psicanálise. Mais especificamente, ela argumenta que uma noção filosoficamente informada da repressão freudiana constitui uma explicação factível dos dados aparentemente contraditórios.

Como o preconceito se torna inconsciente

De acordo com a análise que Krickel e sua equipe realizaram, o professor do exemplo hipotético no início desta matéria reprime as emoções que são desencadeadas por suas associações negativas porque elas não correspondem à sua autoimagem. Consequentemente, ele não está ciente do seu viés implícito, tendo, no entanto, a capacidade de detectar essas emoções se as circunstâncias forem adequadas.

"A função da filosofia é, em primeiro lugar, fornecer uma análise aprofundada do que realmente é a repressão," justifica Krickel. "Com base nas teorias filosóficas da consciência, um modelo viável emerge quando a repressão é entendida como uma mudança de atenção que se torna habituada ao longo dos anos."

Em outras palavras, a pessoa se habitua a inibir as emoções associadas com um ponto de vista logicamente indefensável - o racismo, nesse exemplo - e, por decorrência desse hábito, suprime totalmente o preconceito da sua consciência - o preconceito se tornou inconsciente.


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