Vacina brasileira contra HIV tem novo avanço

Efeito protetor

Um avanço na direção de uma vacina contra o vírus HIV, causador da Aids, foi obtido em uma pesquisa totalmente brasileira, com a participação da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP).

Os pesquisadores criaram um modelo de vacina que atua na resposta imune das células-alvo do HIV e em maior número de partes do vírus, que apresentou características semelhantes a de vacinas altamente protetoras.

Os testes com modelos animais, realizados no Instituto de Investigação em Imunologia (III-INCT), sediado na FMUSP, estão em andamento.

O objetivo é que até o final do ano seja possível verificar se a vacina tem efeito protetor, caso em que poderia começar a ser testada em seres humanos.

Baixa cobertura

O professor Edécio Cunha-Neto, que coordena as pesquisas, conta que ainda não existe uma vacina eficaz contra o HIV que possa ser usada em larga escala.

"Em quase todos os testes, registrou-se baixa cobertura, ou seja, a resposta imune acontecia apenas em uma pequena fração dos pacientes que recebiam a vacina", diz o professor da FMUSP.

Mesmo nas pessoas imunizadas, o grau de imunidade conseguido era fraco. "Em 2007, um estudo demonstrou que as células imunes dos vacinados reconheciam apenas três pequenas partes do HIV, o que era muito pouco para proteção, devido às constantes mutações do vírus," explica.

Pontos fracos das vacinas

Os estudos procuraram identificar as lacunas das vacinas já testadas e quais características seriam desejáveis para uma imunização mais eficaz.

"A resposta imune deveria atingir um maior número de partes do HIV, especialmente as partes conservadas, que não sofreram mutações", ressalta Edécio. "Essa resposta deve ser ampla em cada individuo, mesmo em uma população com características genéticas muito diferentes, que determinam quais partes do vírus serão alvo da resposta imune ".

Ao mesmo tempo, verificou-se a necessidade de estimular a resposta imune das células do tipo T-CD4, que são as células-alvo do HIV.

"O paciente infectado fica com um número baixo de T-CD4, o que leva a imunodeficiência", diz o professor.

As vacinas já testadas se concentravam em fortalecer as células T-CD8, que destroem o HIV. "No entanto, se houver também estímulo ao grupo T-CD4, ele servirá de apoio ao T-CD8, aumentando seu poder defensivo."

Vacina contra o HIV

A partir destas conclusões, partiu-se para um desenho racional da vacina.

"Escolheram-se partes muito conservadas do HIV para induzir resposta imune e por meio de um programa de computador, identificou-se as regiões reconhecidas pelo TCD4, capazes de ser reconhecidos por células T de pessoas com múltiplas constituições genéticas diferentes", diz Edécio. "Em contato com células do sangue de pacientes infectados pelo HIV, o reconhecimento chegou a 90% dos pacientes, mostrando sua eficácia em ser reconhecido por pessoas com constituições genéticas muito variadas."

A qualidade da resposta imune da vacina foi testada em dois trabalhos.

O primeiro, concluído em 2009 por Susan Ribeiro, utilizou quatro tipos de camundongos diferentes, que serviram como modelos da variação genética humana.

O mais recente, realizado por Daniela Santoro Rosa, usando em camundongos comuns, avaliou a resposta imune, sua duração, características principais e se apresenta qualidades especiais, a polifuncionalidade.

Os resultados foram descritos em um artigo publicado no site científico PLoS One, em fevereiro.

Vacina brasileira contra a AIDS

Embora a vacina tenha apresentado características de vacinas altamente protetoras, como as da varíola e febre amarela, o professor ressalta que ainda não é possível dizer se ela possui efeito protetor.

"Normalmente os vírus atacam uma única espécie, e o HIV não infecta os camundongos", explica. "Para verificar a proteção, serão necessários testes em modelos animais que permitam infecção pelo vírus".

Os testes serão realizados em macacos Rhesus, que são infectados pelo SIV, vírus que originou o HIV, e em camundongos modificados que possuem sistema imune semelhante ao dos seres humanos.

"Os experimentos estão em andamento e espera-se que até o final do ano se confirme a existência de efeito protetor, permitindo futuros testes em seres humanos", planeja Edécio.

A vacina experimental, totalmente desenhada, projetada e desenvolvida por uma equipe brasileira, é protegida por uma patente na qual a Fundação Zerbini, ligada a FMUSP, USP e o Ministério da Saúde são os depositários.


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