Mais serotonina, menos motivação? Depende das circunstâncias

Mais serotonina, menos motivação? Depende das circunstâncias
Os resultados têm forte impacto sobre o controverso campo dos antidepressivos.
[Imagem: Gil Costa]

Serotonina e motivação

A variação dos níveis de serotonina, uma das principais moléculas mediadoras da comunicação cerebral, influi sobre a motivação - mas só às vezes.

Além disso, os efeitos de níveis mais elevados de serotonina a curto e longo prazos são opostos, uma propriedade totalmente inesperada do sistema funcional deste neurotransmissor.

Esses efeitos surpreendentes, e até agora desconhecidos, foram identificados por um grupo de neurocientistas do Centro Champalimaud, em Lisboa, e mostram que esse neuromodulador está envolvido em um mecanismo biológico que afeta a motivação dos animais.

A serotonina é um dos mensageiros químicos, ou neurotransmissores, utilizados pelos neurônios para se comunicarem entre si. Sabe-se ainda que ela desempenha um papel importante no controle do sono, do movimento e de outros comportamentos cruciais para a sobrevivência dos animais. Mas a existência de um efeito na motivação não era clara.

Picos de serotonina

A equipe usou uma técnica chamada optogenética, na qual é utilizada luz para manipular (estimular ou silenciar) os neurônios, o que tornou possível estimular ou inibir a produção de serotonina pelos núcleos da rafe e avaliar o efeito dessas variações no comportamento dos animais de laboratório.

Os picos de serotonina induziram um efeito quase imediato no movimento dos animais, que reduziam em cerca de 50% a velocidade de locomoção, mas apenas naqueles animais que não estivessem empenhados em alguma tarefa motivadora, como correr para obter uma recompensa. "O nosso estudo revela que a serotonina tem um efeito direto na locomoção/exploração e eventual motivação do animal," disse a pesquisadora Patrícia Correia.

Experimentos mais detalhados mostraram que o abrandamento no movimento dos animais não se deve a um aumento dos seus níveis de ansiedade, algo que poderia constituir um forte incentivo à inibição do movimento. "Trata-se de outra componente motivacional, que não é a ansiedade, nem tão pouco a expectativa de uma recompensa, uma vez que os animais não procuram ser estimulados", explicou Zach Mainen, coautor do trabalho.

Efeito bizarro

Foi quando os neurônios produtores de serotonina foram estimulados de forma repetitiva ao longo de um período de tempo mais longo, que surgiu a surpresa: mesmo que cada estimulação pontual fizesse diminuir transitoriamente a velocidade de locomoção, globalmente ela ia aumentando, sendo que, ao fim de pouco mais de três semanas, a movimentação dos animais situava-se 30% a 40% acima do que era no início desse período.

Este segundo efeito "é uma bizarra mas importante propriedade do sistema da serotonina", diz Zach Mainen. "Não sabemos o que significa em termos de depressão, mas a motivação para se movimentar poderá estar relacionada com um estado de apatia."

A existência deste segundo efeito, associado ao aumento prolongado dos níveis de serotonina no cérebro, poderá ainda permitir explicar por que os antidepressivos ISRS [inibidores seletivos da recaptação da serotonina] demoram cerca de três semanas para gerar algum efeito. Os ISRS atuam em parte no sistema da serotonina - e talvez o efeito a longo prazo que agora descobrimos tenha a ver com esse período de latência," conclui Zach Mainen.

O trabalho foi publicado na revista online de acesso livre eLife

Núcleos da rafe

Os neurônios que produzem serotonina localizam-se em estruturas celulares do tronco cerebral, a parte mais "primitiva" do cérebro em termos evolutivos, chamadas "núcleos da rafe". Como estes neurônios projetam os seus axônios para múltiplas regiões cerebrais, a serotonina atua em todo o cérebro. Após a sua liberação pelos neurônios dos núcleos da rafe, esses mesmos neurônios reabsorvem a serotonina em excesso.

Como os défices da substância no cérebro estão associados à depressão, ela é alvo de tratamentos dos sintomas depressivos por meios dos medicamentos chamados "inibidores seletivos da recaptação da serotonina" (ISRS), dos quais o mais conhecido é o Prozac - e que fazem justamente aumentar os níveis cerebrais de serotonina ao impedirem a reabsorção do excesso do neurotransmissor.

No entanto, ninguém sabe ao certo de que forma um excesso de serotonina permite, em termos biológicos, aliviar os sintomas depressivos.

O inédito efeito agora revelado pela equipe portuguesa poderá fornecer pistas para esclarecer esta questão e ajudar a elucidar o controverso campo dos antidepressivos.


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