Médicos desconhecem Síndrome das Pernas Inquietas, que atinge 10% dos idosos

Doença desconhecida

O transtorno neurológico chamado Síndrome das Pernas Inquietas (SPI) atinge 5% da população mundial em geral, número que aumenta para 10% quando somente pessoas idosas são incluídas nas pesquisas. Apesar destas altas taxas de incidência, a patologia é considerada a de ocorrência mais freqüente de que as pessoas nunca ouviram falar.

Pensando em diminuir este desconhecimento, que atinge mesmo a classe médica, um grupo de pesquisadores de instituições brasileiras, incluindo a Faculdade de Medicina (FM) da USP, participou de uma reunião para desenvolver um documento baseado na experiência clínica e pesquisa, unificando e divulgando procedimentos de diagnóstico e tratamento da doença. As conclusões foram publicadas em um artigo na revista Arquivos de Neuropsiquiatria, em abril de 2007, sob o título Síndrome das Pernas InquIetas: Diagnóstico e tratamento - opinião de especialistas brasileiros.

Diagnóstico deficiente

O médico Flávio Aloé, do Centro Interdepartamental para os Estudos do Sono do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina (FM) da USP e um dos autores, explica que o objetivo do estudo é ser uma referência tanto para médicos na clínica diária, como para pesquisadores e promotores de políticas de saúde pública, facilitando o diagnóstico e indicando os medicamentos mais eficientes para pacientes com a SPI.

Segundo o médico, dados do Canadá e Estados Unidos, países desenvolvidos e teoricamente com sistemas de saúde eficientes, indicam que apenas de 15% a 23% dos portadores do transtorno são corretamente diagnosticados. Apesar de não haverem pesquisas semelhantes no Brasil, imagina-se que esta situação aqui seja ainda pior.

Uso inadequado de antidepressivos

"Uma ocorrência muito grave que pretendemos minimizar é o fato de os pacientes que apresentam os sintomas da doença e se queixam aos seus médicos serem erroneamente identificados como portadores de transtornos psicossomáticos, ansiedade ou depressão. O uso de antidepressivos causa e agrava os sintomas da SPI, ocasionando grande sofrimento a estas pessoas", adverte o pesquisador.

Para Aloé, os esforços da indústria farmacêutica em ampliar o conhecimento da doença têm ajudado na difusão da temática entre a classe médica mas ainda são necessárias outras ações neste sentido. "Temos relatos de pacientes que chegam ao consultório dizendo apresentar os sintomas da SPI, após ter pesquisado o assunto na Internet, por exemplo, e que são solicitados pelo médico a 'explicar' do que se trata esta doença da qual ele nunca ouviu falar", conta.

Síndrome das Pernas Inquietas

A SPI é uma condição médica crônica caracterizada por desconforto nos membros, causando várias morbidades médicas e mentais e alterações do sono. O principal sintoma apresentado é uma compulsão irresistível para movimentar os membros, causada por uma sensação de desconforto, sendo que esta sensação começa ou piora em repouso e no horário noturno (antes de dormir ou durante a noite).

O desconforto apresenta-se como queimação, dor, pontadas, cãibras e parestesias, isto é, sensações na pele como calor, formigamento, pressão e dormência, e que são vivenciadas sem estimulação direta sobre o local. Costuma ser localizado nas panturrilhas, e é aliviado temporariamente por atividade física ou banhos quentes.

A SPI se caracteriza pela degeneração de certos sistemas neurais, e são considerados fatores de risco para o seu aparecimento as seguintes situações: ser do sexo feminino; ter mais que 50 anos; estar grávida; ser doador freqüente de sangue; apresentar anemia, insuficiência renal crônica, doença de Parkinson, diabetes mellitus, fibromialgia, artrite reumatóide, mielopatias, neuropatia periférica; e usar fármacos como antidepressivos. Mas é importante ressaltar que nem todas as pessoas que apresentem tais condições desenvolverão necessariamente a doença, já que a predisposição genética é sua causa determinante.

Tratamento da Síndrome das Pernas Inquietas

O tratamento consiste na administração de remédios (principalmente drogas conhecidas como agentes dopaminérgicos e anticonvulsivantes), reposição de ferro, e tomada de outras medidas, como suspensão de fármacos que agravam o problema - a exemplo dos antidepressivos -, realizar a chamada "higiene do sono", evitando o consumo de cigarros, produtos ricos em cafeína e bebidas alcoólicas e também a prática de exercícios físicos intensos antes de dormir, bem como tratar outros transtornos do sono que o paciente apresentar.

Os membros do Grupo Brasileiro de Estudos em Síndrome das Pernas Inquietas (GBE-SPI) que produziram as conclusões descritas no artigo são: Flávio Aloé, Rosana Cardoso Alves, Luiz Augusto Franco Andrade Márcia Assis, Andrea Bacelar, Márcio Bezerra, Henrique Ballalai Ferraz, Ronaldo Guimarães Fonseca, Wagner Horta, Mônica Santoro Haddad, Rosa Hasan, James Pitágoras de Mattos, Gilmar Prado, Nonato Rodrigues, Ademir Batista Silva, Delson José da Silva, Hélio Afonso Ghizoni Teive, Francisco Cardoso, Geraldo Rizzo (estes dois últimos foram os responsáveis pela redação final).


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