Dekasseguis que migram para o Japão encontram dificuldades de inserção social

Volta às origens

Um século depois do início do movimento de imigração japonesa para o Brasil o fluxo se inverteu e, há aproximadamente duas décadas, o Japão vem sendo destino de filhos (nisseis) e netos (sanseis) desses imigrantes.

Este movimento, inclusive de membros de sua própria família, chamou a atenção do geógrafo Ricardo Hirata Ferreira, que decidiu estudá-lo, percebendo que apesar das variações de cada caso, a condição do migrante dekassegui sempre vem acompanhada de conflitos e o processo de inserção destes descendentes na sociedade japonesa não se dá facilmente.

Objetivos dos dekasseguis

Em 2005, Ferreira passou 39 dias no Japão entrevistando dekasseguis que deixaram o Brasil para trabalhar naquele país, e identificou quatro grupos em diferentes situações. As entrevistas compõem o estudo realizado na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP.

O primeiro caso é dos que vão para o Japão para trabalhar e poupar, com uma meta bem definida em mente, como adquirir a casa própria no Brasil, por exemplo. Planejam permanecer no país de dois a três anos, período em que levam uma vida mais regrada e dificilmente saem da rotina "da casa para o trabalho e do trabalho para a casa". Os contratos de trabalho não são feitos diretamente com as fábricas japonesas onde prestam serviço, mas com empreiteiras que terceirizam esta mão-de-obra. São assim praticamente excluídos de benefícios como assistência médica e previdência.

Aversão aos imigrantes

Ferreira explica que o Japão é um país aversivo ao imigrante de maneira geral, principalmente ao de país periférico. Apesar de o mercado de trabalho absorver estes trabalhadores em atividades braçais, o Estado e a sociedade não os vêem com bons olhos.

O segundo grupo é formado por descendentes que não têm a mesma preocupação em poupar, e já estão no Japão de 5 a 8 anos. A idéia de voltar ao Brasil é encarada apenas como projeto para um futuro indeterminado. Mas costumam vir com mais freqüência para passear e visitar parentes.

No grupo seguinte estão aqueles migrantes que dão claras indicações de que não voltarão ao Brasil. Grande parte destes já tem visto permanente, família com filhos em escolas para japoneses e até contratos de trabalho direto com as empresas japonesas.

Nem japonês e nem brasileiro

Por último, há uma outra população que começa a ser representativa no Japão. São os filhos de migrantes que, apesar de nascidos lá, não são reconhecidos como japoneses pelo governo. "Algumas destas crianças e adolescentes estudam em escolas específicas para brasileiros, mas os que estudam em escolas japonesas passam por dificuldades para se adaptar em função da língua e dos padrões rigorosos daquele sistema educacional", conta o pesquisador.

Além disso, conforme explica o geógrafo, "esta geração sofre de uma preocupante crise de identidade, relatando não se sentirem brasileiros, pois quando estão no Brasil são vistos como japoneses -, e nem japoneses, pois lá são tratados como 'gaijins', termo destinado aos estrangeiros e que pode ter uma conotação negativa, sendo 'inimigo' um de seus significados". A rejeição ao diferente, mais do que em outros lugares, faz parte da cultura japonesa, o que torna a situação destas pessoas ainda mais difícil.

Mudanças benéficas

Apesar das dificuldades vividas pelos migrantes, a maioria deles acredita que a mudança foi benéfica, já que naquele país passaram a ter acesso a uma série de itens de consumo que não podiam adquirir no Brasil, como casa, automóvel e viagens. Assim, nas palavras de Ferreira, "o consumo é uma variável chave para entender a migração para um país capitalista de ponta como o Japão, em que apesar das dificuldades enfrentadas, a vida confortável e aparentemente segura do ponto de vista dos bens materiais se apresenta compensadora".


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