Brasileiros desenvolvem nova metodologia para prever epidemias de dengue

Brasileiros desenvolvem nova metodologia para prever epidemias de dengue
Alertar os pacientes é imprescindível durante os surtos e epidemias porque as pessoas infectadas podem gerar até 80% dos novos casos de dengue - e possivelmente de outras doenças assemelhadas.
[Imagem: Anna-Karin Landin/Stockholm University]

Índice de Breteau

Pesquisadores brasileiros desenvolveram uma nova técnica para prever epidemias de dengue que pode sair mais barata e ser atualizada continuamente, mantendo alertas válidos para a população e para as autoridades de saúde.

Tudo começou quando Maria Carla Pereira Parra e seus colegas da Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto (Famerp) e da USP (Universidade de São Paulo) se deram conta de que a metodologia atual, conhecida como Índice de Breteau, simplesmente não estava mais funcionando.

"O Índice de Breteau calculado em São José do Rio Preto no início de 2018 foi o maior de todos os tempos. Foi superior inclusive ao índice de 2013, quando a região passou pela pior epidemia de dengue de sua história, com 18 mil casos. No entanto, em 2018 foram notificados apenas 44 casos da doença até o momento. Ou seja, pelo menos em nossa região, o Índice de Breteau não guarda mais relação com a prevenção da dengue," conta o professor Maurício Lacerda Nogueira, que coordenou a equipe.

Esse índice é calculado pela contagem de larvas do mosquito. Mas somente as fêmeas adultas transmitem o vírus após o acasalamento, quando buscam sangue humano para produzir e botar ovos. Além disso, a contagem das larvas requer a mobilização de uma grande mão-de-obra, o que é muito caro, tornando difícil atualizar as previsões durante toda a estação.

Índice entomológico

Os pesquisadores tiveram então a ideia de desenvolver um novo índice que levasse em conta apenas o número de fêmeas adultas. "Achávamos que seria mais fidedigno e mais fácil de calcular. A lógica por trás é que, quanto maior a quantidade de fêmeas adultas no ambiente, maior será a quantidade de pessoas infectadas," disse Maurício.

A ideia deu certo, conforme comprovado no primeiro teste da nova metodologia. A equipe espalhou em São José do Rio Preto 56 armadilhas especiais, que liberam no ambiente um odor semelhante ao da pele humana - capaz de atrair as fêmeas de mosquito sedentas por sangue. Ao entrar no dispositivo, os insetos ficam aprisionados e morrem.

"As armadilhas eram posicionadas com um espaçamento de 200 a 400 metros, que é a metade do raio de voo do mosquito. Recolhíamos no dia seguinte para a contagem das fêmeas adultas," contou Maurício. O experimento foi feito duas vezes por semana, permitindo reunir dados de até 62 residências por semana, ao longo de um ano, o que gerou um mapa da cidade com os níveis de infestação.

Depois de examinadas as fêmeas para ver quais eram Aedes aegypti e quais efetivamente carregavam o vírus da dengue, a equipe criou um modelo que permite analisar rapidamente os dados e prever a taxa de infecção na região. O índice entomológico (índice da presença de insetos) foi confrontado com os dados da vigilância epidemiológica para casos de dengue na cidade no mesmo período.

O novo índice mostrou uma estreita correlação entre aumento do número de fêmeas capturadas e infectadas e o número de casos de dengue reais na mesma região.

"Nosso índice entomológico correlaciona-se positivamente com a incidência de dengue, particularmente durante os intervalos em que as medidas de controle de vetores foram aplicadas de forma menos intensiva," contou Maurício.

Os pesquisadores estão agora repetindo o experimento em outra região com o objetivo de validar os resultados e comprovar que, de fato, o novo método é uma alternativa confiável ao Índice de Breteau.


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