Acidentes com material biológico são negligenciados

Uso de equipamentos de proteção

Os acidentes envolvendo material biológico entre estudantes de enfermagem não recebem a atenção adequada, apesar dos riscos de contaminação, como demonstra uma pesquisa realizada na Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto (EERP).

O estudo da enfermeira Rafaela Thaís Colombo Canalli aponta que em quase metade dos acidentes, os estudantes não usavam equipamentos de proteção e apenas 40% casos foram notificados. A falta de orientação sobre procedimentos de segurança é outro problema identificado na pesquisa.

A enfermeira pesquisou três instituições de ensino de enfermagem em um município do interior de São Paulo, por meio de questionários aplicados aos alunos. Entre os 355 participantes, 44 relataram ter se acidentado com material biológico, num total de 55 ocorrências. "Desse total, 39 acidentes afetaram a pele íntegra e os demais envolveram agulha ou escalpe que perfurou a pele, sendo que o material biológico mais envolvido foi sangue, em 40 casos" aponta Rafaela.

Notificação dos acidentes

Apenas 40% dos casos de acidentes foram notificados. Na maioria dos casos, a área de contato foi limpa com água e sabão e não foi acionado nenhum serviço de referência em doenças infecciosas. Em 49,1% dos acidentes, os alunos afirmaram que não utilizavam Equipamentos de Proteção Individual (EPIs). "Eles alegaram que ninguém cobrou o uso, ou não havia equipamento disponível, ou ainda que ignoravam sua necessidade", aponta a pesquisadora. "Em 80% dos procedimentos relatados havia a necessidade do uso de luvas, no mínimo".

Segundo Rafaela, existem mais de 60 tipos de patógenos associados ao risco de contaminação em acidentes com material biológico. "Os mais preocupantes são os vírus HIV, responsável pelo contágio da Aids, HBV e HCV, associados às Hepatites B e C", alerta. A enfermeira menciona que nos Estados Unidos, segundo estatísticas, entre 1985 e 2002, há registro de 57 casos confirmados de contaminação por HIV causados por acidentes, enquanto no Brasil foram registrados apenas quatro casos. "A subnotificação é muito comum, no estudo 38,2% das vítimas relataram não ter adotado nenhuma conduta".

Falta de equipamentos e desatenção

Na pesquisa, os alunos apontaram como principais causas dos acidentes o não uso de EPIs e a desatenção. "Também foram mencionados estresse, pressa, nervosismo, pressão ou medo do professor e inexperiência", conta Rafaela. "Os estudantes também acreditam que a própria natureza do trabalho de enfermagem, devido ao grande contato com material perfurocortante e fluidos biológicos, favorece a ocorrência de acidentes, por isso pedem medidas de educação permanente".

A pesquisadora propõe que sejam incluídos nos currículos dos cursos de enfermagem uma disciplina ou momentos específicos para abordar o tema da prevenção e controle de riscos ocupacionais. "Os alunos só devem iniciar atividades práticas após receberem as informações necessárias para garantir sua segurança e dos clientes com relação a exposição a material biológico", enfatiza.

Normas de biossegurança

De acordo com Rafaela, os docentes que supervisionam atividades práticas devem receber orientações específicas atualizadas para que tenham condutas adequadas e uniformes. "As instituições de ensino devem adotar um protocolo de atendimento aos alunos e professores nos casos de acidentes com material biológico, para servir como referência e permitir um atendimento adequado", recomenda.

As escolas também precisam providenciar EPIs em número suficiente e adequado para os locais de ensino e aprendizagem, sugere a enfermeira. "Nas instituições de saúde onde há atividades práticas de ensino, é preciso haver educação permanente para os funcionários, além da revisão das condições de trabalho e o cumprimento das normas de biossegurança", completa.


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